A Dissonância Cognitiva e A Desonestidade Intelectual

A fábula das raposa e das uvas é muito conhecida por exemplificar a dissonância cognitiva. Por ver que as uvas estão alta demais para serem apanhadas, a raposa racionaliza e apenas se convence que as uvas não são boas, resolvendo um conflito de forma simples, para não prolongar o seu sofrimento de não conseguir o desejava.

Screenshot_3

Precisamos tomar cuidados, quando na vida, inventamos estórias na nossa cabeça, para criar uma realidade que seja mais alinhada do que o que gostaríamos que o mundo fosse. As nossas perguntas e reflexões devem ser respondidas de forma inteligente, para que não cause ilusões e fantasias longe da realidade.

Cada um de nós tem uma subjetividade, que como o próprio nome propõem, é uma forma individual de interpretar as coisas, subjetiva. Diferente da forma objetiva, representada, nesse caso, pela verdade propriamente dita.

Invariavelmente cometeremos erros de interpretação das coisas, mas o desafio é tentar ter a maior clareza possível sobre os eventos, tentar nos aproximar da realidade. Entrar em pensamentos neuróticos, muitas vezes nos afastam da realidade e nos aproximam de um mundo de faz de conta, os únicos prejudicados com isso, somos nós mesmos.

A negação é um outro mecanismo que pode nos revelar uma certa desonestidade intelectual, negamos e evitamos entrar em contato com certas coisas, nos iludindo, na esperança de achar que as coisas não são o que são.

Quando é possível resolver alguns conflitos mais aflitivos da nossa subjetividade, nós ganhamos liberdade, por vezes tais mecanismos nos prendem a neuroses, paranoias e fantasias. Domar o nosso subconsciente, exercitando a nossa razão, honestamente, sem dúvida, é se desenvolver e criar uma consciência maior.

 

Ciclos Comportamentais

“O pássaro não canta porque está feliz, mas sim está feliz porque canta.” William James

Quando vemos algo que nos motiva e nos desperta um desejo instantâneo de partir para ação, certamente com uma dose de euforia. Nos sentimos transitoriamente fortes, determinados. Então essa euforia vai embora e nos sentimentos culpados por não seguirmos com aquela motivação, podemos nos sentir fracos e sem esperança. E porque isso?

jHmffJU

As pessoas ingenuamente acham que para viverem as vidas dos seus sonhos, precisam de uma energia, um entusiasmo entorpecente, mas isso está muito longe de ser verdade. Não é assim que acontece na mente humana e ter esse pensamento raso e romântico só serve para gerar um mecanismo de culpa e auto-sabotagem. A energia oscila, o humor oscila, a motivação oscila. Bem como a nossa homeostase fisiológica, as nossas características emocionais estão sempre em batalha, tentando atingir uma espécie de equilíbrio. E o erro está em acreditar que é necessário uma série de condições “perfeitas” para entrar em ação. Para fazer alguma coisa. Bom, isso simplesmente não condiz com a verdade.

A verdadeira causa das pessoas com comportamentos e realizações acima da média, conseguirem realizar as coisas, está em uma certa maturidade emocional de simplesmente conseguir entrar em ação, apesar de todos os pesares. Se formos, certamente esperar, por uma “motivação” ou da nossa força de vontade, simplesmente para atingir um objetivo, teremos um fracasso retumbante e isso apenas vai gerar culpa, e a crença na nossa falta de capacidade. Então, ficaremos isolados e quando bater novamente aquela certa inspiração de mudança, e o mesmo acontecer, retroalimentaremos o ciclo, nos auto-sabotando.

Até um ponto, subconsciente, que deixaremos de agir, ou já agiremos de formas a nos limitar, apenas seguindo uma programação mental que definimos.

Como quebrar esse paradigma?

Contar com unicamente com a nossa força de vontade, ou com estímulos externos que nos forneçam uma motivação, nos limita e nos prende à um ciclo vicioso. É muito difícil apenas com a nossa força de vontade, quebrarmos repentinamente padrões consolidados na nossa mente, por décadas a fio. É simplesmente irreal e uma receita certa para fracasso e culpa.

O primeiro passo é então, aceitar as nossas limitações, ao menos iniciais e aceitar que os progressos devem ser feitos de forma calma e tranquila. Quando queremos dar um passo maior que a perna, no primeiro deslize o nosso diálogo interno pode nos criticar e nos culpar, nos paralisando e acabando com a nossa autoconfiança.

Da mesma forma que um músculo é trabalhado, as nossas ações reforçam a nossa capacidade. Só se consegue modificar comportamentos negativos fortemente arraigados nos nossos sistemas, com constância, a constância é muito mais importante que a intensidade. Ela molda e retroalimenta as nossas capacidades, e nos reprogramam de acordo com as nossas ações.

Diminuir ou tentar silenciar a crítica interna e seguir em frente, deixando de lado o perfeccionismo e metas mirabolantes, entendendo as nossas limitações é libertador ao ponto de nos revolucionar como seres.

“Nós somos o que repetidamente fazemos. A excelência, então, não é um ato, mas um hábito” (Will Durant).

Então qual é o segredo? Nenhum, Não existe nenhum truque, nenhuma fórmula mágica para nos mantermos motivados de forma absoluta, sempre contando com a nossa força de vontade. O que existe, na verdade, é uma clareza, a maturidade. A maturidade que faz alguém acordar cedo para fazer uma atividade qualquer, que mantém a solidez dos comportamentos e essa solidez e constância nos comportamentos, “automatizam” de forma positiva o indivíduo. O contrário também é verdadeiro, podemos entrar no ciclo de maus hábitos, até que eles fiquem tão arraigados nos nossos sistemas nervosos, a ponto de sermos escravos da nossa repetição.

Qualquer tipo de atividade, demanda esforço inicial, como um avião que certamente precisa de uma quantidade enorme de energia para decolar, mas depois, quando no ar, ele não precisa mais dispender essa quantidade absurda de energia.

“O hábito é o melhor dos servos, ou o pior dos amos.” Nathaniel Emmons
 Temos que abandonar certas crenças, idealizadas sobre força de vontade e motivação e simplesmente partir para a ação, usando os pensamentos de forma racional  (mesmo que soe, de alguma forma, artificial no começo) até que o sistema se automatize, para o bem. Até que eventualmente um tema se torne se interessante, que os hábitos consigam revelar de nós, a nossa melhor essência. Quando isso acontecer, da mesma forma que citada anteriormente no sistema de culpa e auto-sabotagem, o sistema se retroalimenta positivamente, gerando autoconfiança e como consequência aumentando a nossa capacidade de agir.
Um efeito bola de neve, quanto melhor, cada vez melhor, quanto pior, cada vez pior.